Cada vez mais as campanhas publicitárias
se segmentam – mesmo as dirigidas a um público amplo,
veiculadas em anúncios de jornais ou revistas e nos outdoors.
Daí o desfile de baladeiros, sonhadores, médicos,
dentistas, advogados, torneiros mecânicos, deputados, garis,
magros, gordinhos, cabelos encaracolados, modelos, deficientes físicos,
torcedores do América Futebol Clube, flanelinhas. Daniel
Barbará, diretor da DPZ e pesquisador de tendências
da comunicação publicitária, diz que esse movimento
tem consistência, mas está prestes a se acabar. “É
uma comunicação que atinge os objetivos, mas deverá
ser vítima da convergência de mídias –
computador” que é televisão, televisão
que é computador, rádio e internet que, por sua vez,
tem televisão, jornal e revista.” Isso tudo, afirma,
levará a publicidade a buscar, de algum modo, uma forma de
aglutinação para alcançar seus objetivos. “Talvez
aquelas campanhas tradicionais, que buscavam atingir o consumidor
pela divisão de sexo, idade e renda, tenham perdido de vez
seu lugar na comunicação,” diz. “O que
se explica pela necessidade das marcas de emocionar os consumidores
e de se mostrarem cúmplices de um grupo para angariar a simpatia
dos demais.
Mas isso não significa que vamos continuar subdividindo grupos.
“Haverá um momento de reaglutinação.”
Barbará acredita que essa segmentação na comunicação
publicitária acompanhou o fatiamento dos meios de comunicação,
que criaram publicações e programas de rádio
e televisão específicos para determinados públicos.
“Essas publicações e programas abriram espaço
igualmente para as revistas e atrações customizadas,
que parecem ter despertado nas agências a necessidade de também
fatiar o público.” Algumas campanhas na
onda da segmentação, observa, contribuíram
para uma benéfica mudança de comportamento ou para
um respeito maior aos consumidores e às minorias. Outras
parecem apenas querer comunicar as marcas aos consumidores de forma
inusitada. Públicos variados – A J.W. Thompson, por
exemplo, inaugurou com produtos da Unilever uma linha de comunicação
voltada para o consumidor étnico: a campanha da linha Seda
Keraforce, criada em dezembro de 2000, em que a empresa investiu
R$ 8 milhões, para o consumidor negro, foi um marco. O presidente
da J.W. Thompson, Álvaro Novaes, ficou feliz com o resultado.
Hoje, ele também aposta nas fórmulas que buscam públicos
específicos. As campanhas que a agência dele cria para
o Ford EcoSport são um bom exemplo. Focam na aventura, mas
atingem também outros consumidores, diz Novaes, aqueles que
gostariam de terem aventura ou de serem aventureiros.
A segmentação ficou ainda maior com a campanha de
Skol, criada por Fábio Fernandes, o F da F/Nazca, na qual
vários personagens pedem a cerveja, cada um à sua
moda. A cerveja, líder
de venda com mais de 30% de um mercado que consome R$ 10 bilhões
por ano, diz Fernandes, pode falar com as minorias com muito humor,
porque é produto da maioria. “A vantagem de um produto
ou marca que goza do respeito de todos os consumidores é
poder trazer para a roda outros consumidores, representantes de
grupos sociais e de comportamento, que possam despertar emoção
e humor. Como a Skol não tem rejeição, essa
brincadeira soa natural.” O Banco Itaú, pelas mãos
da Africa, de Nizan Guanaes, é quem fez a campanha mais agressiva
de segmentação que está em cartaz em todo o
País desde o início do ano. O Itaú se define
como o banco feito sob medida para baladeiros, sonhadores e até
clientes de outros bancos. Guanaes garante que inovou nessa comunicação,
buscando atingir diferentes públicos e, com isso, fidelizar
os já existentes. Uma das armas do sucesso da campanha do
Itaú foi a posição dos outdoors espalhados
pela cidade de São Paulo. Na entrada da Vila Madalena, reduto
de festas e de badalações noturnas, um outdoor convida:
“Baladeiros. O Itaú foi feito para vocês.”
Num ponto onde o congestionamento do trânsito é constante,
outro outdoor diz: “Congestionados. O Itaú foi feito
para vocês.” A estratégia se repete em outras
regiões a ponto de o conceito “Feito para você”
ter se espalhado por todas as ações do banco, para
alegria do vice-presidente do Itaú, Antônio Matias,
que aprovou a idéia. Mensagens específicas –
O banco inglês HSBC, que entrou no mercado brasileiro ao comprar
o Bamerindus, é outro que aposta na diversificação.
O diretor de Marketing do HSBC Brasil, Glen Valente, diz que o banco
decidiu adotar essa estratégia depois de constatar o êxito
desse tipo de comunicação. “Dessa forma você
se aproxima mais do público, fala a sua linguagem e mostra
que tem a cara de cada um desses lugares e ainda cria uma imagem
simpática com que já é cliente.”
O Citroën C-3 Ocimar Versolato, por sua vez, foi desenhado
para as modelos e a agência Duezt, hoje Carillo, Pastore Euro
RSCG, apostou nesta idéia, que a montadora aprovou com o
mote “As ruas vão ficar muito mais elegantes”.
A Motorola tem celulares para patricinhas, mauricinhos e para os
que gostam de baladas noturnas e raves, numa campanha em que a Ogilvy
pode soltar a criatividade. O Banco Real, pelas mãos da Lew,
Lara, busca os estudantes e, com eles, espera atingir os que hoje
têm poder. A lã de aço Bombril também
mudou. Aposentou o garoto-propaganda Carlos Moreno para dar voz
às minorias. Agora, é produto de deficientes físicos,
dos torcedores do América Futebol Clube e dos gays. Washington
Olivetto, que criou a campanha, reforça a opinião
de Fernandes: um produto das maiorias pode falar sem medo com as
minorias. A segmentação, aposta Olivetto, vai continuar.
Para Daniel Barbará, porém, seus dias estão
contados.
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