No jogo do concorrente
Ao tingir sua logomarca de verde-amarelo, a
Coca-Cola torna-se um exemplo de líder de mercado que segue
a estratégia da rival
Por Nelson Blecher
A Coca-Cola é reconhecida em pesquisas como a mais planetária
das marcas, a ponto de ter se descolado de suas origens. Hoje é
o McDonald's, e não a Coca-Cola, que mais comumente é
identificado como o ícone americano no mundo. Dito isso,
a recente decisão da empresa de tropicalizar sua logomarca
corporativa no Brasil, adicionando um toque verde-amarelo a seu
tradicional vermelhão, poderia sugerir um contra-senso no
marketing do primeiro nome genuinamente global, não fosse
por um detalhe. A subsidiária brasileira da Coca-Cola vive
hoje sob pressão de uma disputa judicial, acusada de concorrência
desleal por um concorrente menor, a fabricante de refrigerantes
Dolly -- que faz do apelo ao nacionalismo uma de suas armas. E que
também é acusada pela Coca-Cola de praticar concorrência
desleal. A briga, desde o início, não ficou confinada
aos tribunais. Ao contrário, ganhou ampla cobertura na imprensa.
Mais recentemente, a Dolly comprou espaço numa rede de TV
para um programa batizado de 100% Brasil, cujo tema monocórdio
é desfiar acusações à rival. A única
virtude do programa é seu horário de exibição
-- tão tarde que pouca gente corre o risco de assistir a
tal chatice. Pois foi essa briguinha paroquial, e não uma
estratégia global, que impulsionou a Coca-Cola em sua campanha
verde-amarelo. "Sem dúvida, o fato de sermos pressionados
numa guerra de comunicação reforçou nosso projeto",
afirma o executivo Marco Simões, diretor de comunicação
da Coca-Cola.
Na competição entre empresas, esse
tipo de embate no campo do marketing ocorre com freqüência.
As decisões tomadas por um fabricante ou marca muitas vezes
se definem em razão dos movimentos adotados pelo concorrente,
ou pela concorrência de modo geral. Apesar de seu tamanho
e solidez, a Coca-Cola não poderia fingir que nada estava
acontecendo quando um rival, ainda que nanico, a atacava sistematicamente.
A solução foi tentar neutralizar os argumentos nacionalistas
com a inclusão das cores da Bandeira Nacional na logomarca
da múlti. A Ambev já havia sentido essa pressão
na pele -- e também modificou sua estratégia de comunicação
por causa de ataques da concorrência.
Aliás, a briga se deu no mesmo campo nacionalista. Quando
a companhia se aliou à belga Interbrew, em março passado,
a Schincariol, que acabava de lançar sua cerveja Nova Schin,
provocou a Ambev com anúncios em que se pontificava ser 100%
brasileira. A Schincariol passou a difundir em seus anúncios
as virtudes de sua brasilidade, como se o consumidor de cerveja
se preocupasse com isso. Ele não se interessa em saber se
sua bebida vem do Brasil ou do exterior. Ele quer que ela venha
é da geladeira. Para tentar neutralizar a campanha da Nova
Schin, a Ambev baseou sua mensagem no fato de que a aliança
com os belgas pro jetava uma empresa brasileira no primeiro time
das multinacionais.
De acordo com o consultor americano Michael Porter,
professor da Harvard Business School, quando o assunto é
competição, nenhum desafiante, nem os menores e mais
fracos, pode ser ignorado. "Cada um deve ser avaliado quanto
às suas motivações e capacidade", diz
Porter. Há um bom exemplo nacional para ilustrar a necessidade
de manter os olhos abertos. Quando a empresa aérea Gol surgiu
na praça, ela não passava de uma promessa que só
a família dos donos da companhia levava a sério. Em
menos de dois anos, já era um colosso. No terceiro ano de
ope- ração, abriu o capital na bolsa de Nova York.
As gigantes Varig e TAM viram sua fatia de mercado encolher e foram
obrigadas a disputar espaço nos termos do novo adversário,
ou seja, reduziram a tarifa. Entre os estudiosos, há uma
controvérsia em torno da seguinte questão: as empresas
podem ter força suficiente para conduzir suas estratégias
de marketing? Ou às vezes não lhes resta opção
senão responder ao concorrente?
O consultor americano Al Ries aconselha as empresas
às voltas com angústias desse tipo identificar a posição
da marca não exatamente na divisão do mercado, mas
na mente do consumidor. Segundo Ries, são as percepções
do cliente a respeito das marcas que comandam o mercado e podem
decidir, para o bem ou para o mal, o destino de uma empresa. Um
caso ilustrativo citado por Ries é o da rede Avis de locação
de automóveis. Vice-líder desse segmento nos Estados
Unidos, a Avis acumulou prejuízos por 13 anos seguidos. Só
voltou aos lucros quando reconheceu publicamente a liderança
da rival Hertz em anúncios com o slogan "Somos a número
2 em locação de veículos. Por que nos escolher?
Nós nos empenhamos muito mais". Com essa campanha, a
Avis conseguiu driblar a proposta da líder e abriu espaço
para estabelecer sua própria estratégia, em vez de
simplesmente seguir a da líder. "A campanha da Avis
ficará na história do marketing como um exemplo clássico
do estabelecimento da posição contrária",
afirma Ries. No Brasil, a rede de televisão SBT adotou tática
semelhante em sua disputa contra a líder Globo. Pode-se afirmar
que Avis e SBT se curvaram à liderança de seus concorrentes.
Mas com isso também se diferenciaram e conseguiram restabelecer
suas próprias estratégias de comunicação.
Por vezes, as empresas são vitimadas por
uma das mais perigosas síndromes nos negócios. Compelidas
pela obsessão de um competidor, reagem com mais intensidade
aos movimentos ou expectativas em relação ao rival
do que às preferências dos clientes. Foi o que aconteceu
com a anglo-holandesa Unilever. Em meados dos anos 90, envolvida
na guerra dos sabões em pó, que até hoje trava
com a Procter & Gamble mundo afora, a anglo-holandesa Unilever
insistiu em promover na Europa sua recém-lançada marca
Persil Power, mesmo depois de suspeitas de que os principais ingredientes
da novidade -- minúsculos cristais de manganês -- poderiam
danificar as roupas. Como o novo detergente da P&G, chamado
Ariel Future, só chegaria às prateleiras alguns meses
depois, os executivos da Unilever consideravam-se numa vantajosa
dianteira. Em vez de prestar atenção numa advertência
que a própria P&G oportunamente sugeria em seus anúncios
("Só Ariel lava com tanta segurança"), os
executivos da Unilever optaram por uma batalha publicitária
com a rival. Quando a P&G finalmente lançou o Future,
a Unilever anunciou um novo detergente. Detalhe importante: sem
os tais cristais de manganês.
Recentemente a americana Motorola viveu uma situação
semelhante, mas isso não lhe custou apenas a liderança
numa linha específica de produtos, como no caso da Unilever.
Isso lhe custou o primeiro lugar no mercado de crescimento mais
explosivo do mundo: a fabricação de celulares. Por
seis décadas, a Motorola, pioneira em aparelhos de TV em
cores, soube se manter na crista de todas as ondas tecnológicas.
Mas cochilou ante o marketing agressivo da finlandesa Nokia, que
transformou o telefone celular de conveniência em objeto de
desejo dos consumidores. Foi com aparelhos cada vez menores e, principalmente,
com design inovador que a Nokia passou a ditar a moda. Segundo o
consultor americano Robert Mittelstead Jr., a Motorola viu sua fatia
de 30% nesse mercado despencar para 16%, também por ter sido
lenta na mudança da tecnologia analógica para a digital.
Com tudo isso, a Motorola foi deslocada da posição
de líder mundial para seguidora de empresas como a Nokia.
"Deslocamentos como esse acontecem de forma
cada vez mais veloz", afirma o pesquisador Francisco Gracioso,
autor de Marketing Estratégico. Como exemplo, cita as transformações
recentes ocorridas no mercado brasileiro, como a consolidação
das redes de varejo e a emergência dos consumidores de baixa
renda, que mudaram a dinâmica competitiva no setor de bens
de consumo rotineiros. Os maiores fabricantes de alimentos e bebidas,
por exemplo, passaram a adotar estratégias de combate a múltiplos
e influentes competidores. Um dos exemplos mais flagrantes desse
fenômeno é a Nestlé. Atacada em diferentes prateleiras
por pequenas, ágeis e dispersas marcas regionais, as chamadas
talibãs, a Nestlé optou por massificar a marca cor
porativa em grandes concursos de TV.
Nem sempre, porém, entrar na arena do concorrente
é desvantajoso. Convém lembrar que a prolongada guerra
entre Coca e Pepsi engrossou o número de bebedores de refrigerantes
cola. Existem circunstâncias em que uma empresa inovadora
forja para os rivais um novo segmento de mercado. Foi o que fez
a Fiat no Brasil. No final dos anos 90, a Fiat havia constatado,
por meio de pesquisas, que cerca de 80% dos proprietários
de carros 4x4 jamais haviam usado a tração nas quatro
rodas, item que chega quase a dobrar o preço de um carro.
Lançou, então, uma versão light do fora-de-estrada,
a Adventure, que já representa 50% das vendas do Palio Weekend
e do Doblò. Embora não tenham tração
nas quatro rodas, esses veículos, com sua aparência
robusta, satisfazem as fantasias dos consumidores que se identificam
com uma imagem mais aventureira, ainda que jamais venham a tirar
as rodas de seu carro do asfalto. "Já estamos até
exportando o Palio Adventure, uma criação brasileira,
para a Europa", diz Carlos Henrique Ferreira, assessor técnico
da Fiat. Ao investir nesse nicho, a Fiat abriu a trilha para seus
concorrentes. A Volkswagen, por exemplo, prepara-se para lançar
o CrossFox, que vai concorrer com a linha Adventure e o EcoSport,
da Ford. Outros estão por vir.
(Fonte: Portal Exame)
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