No mundo de negócios do Ocidente, por causa da combinação fascinante de poder e carisma, alguns executivos transcendem as baias do ambiente corporativo e são alçados à condição de celebridade. Na recente conversão da China ao capitalismo, esse fenômeno era inédito até a fulminante ascensão profissional de Yang Yuanqing. Ele começou a vida profissional em 1988, ganhando 30 dólares por mês para vender PCs. Hoje, quase duas décadas depois, é o presidente do conselho de administração da empresa que representa um orgulho nacional, a Lenovo. A companhia de Pequim ocupa a posição de terceira maior fabricante de micros do mundo, atrás apenas das americanas Dell e HP. Tem um faturamento anual de 13 bilhões de dólares e presença em 160 países. Estar no comando da mais globalizada das companhias chinesas elevou Yuanqing ao status de popstar no país. Ele dá autógrafos e é requisitado por fãs para tirar fotos nas ruas. Além de símbolo do sucesso capitalista do gigante asiático, o executivo de 42 anos é visto como um homem capaz de mudar a imagem de que a China só tem capacidade de fabricar produtos baratos. "Você carrega nos ombros as esperanças do país", disse a ele o premiê chinês Wen Jiabao, durante uma visita ao escritório da Lenovo.
Por causa de sua origem humilde, Yuanqing começou a pegar cedo no batente. Aos 8 anos, já cuidava dos dois irmãos enquanto os pais, ambos médicos cirurgiões, trabalhavam. Apesar da boa colocação profissional, o dinheiro era curto e eles viviam num apartamento apertado localizado num conjunto habitacional decadente no subúrbio de Hefei, no leste do país. Apesar do gosto por poesia e literatura, Yuanqing formou-se em ciência da computação por sugestão de um amigo da família e conseguiu seu primeiro emprego como vendedor da distribuidora de computadores Legend, o antigo nome da Lenovo. Quase por acaso, o jovem talentoso e ambicioso encontrou por ali o ambiente ideal para crescer profissionalmente. No início dos anos 90, a Legend resolveu alçar vôos mais altos e passou a investir na produção dos próprios modelos. Acostumado a aprender rápido, Yuanqing logo acumulava um impressionante conhecimento sobre o mercado de computadores. Acabou caindo nas graças do então presidente do conselho de administração da companhia, Liu Chuanzhi, que começou a prepará-lo como seu sucessor em 1994. Dois anos depois, Yuanqing provou que a aposta estava certa e conduziu a Lenovo ao primeiro lugar no mercado chinês.
Após a conquista do mercado nacional, a Lenovo partiu para saltos mais ambiciosos -- e mais uma vez Yuanqing teve papel decisivo nos rumos da companhia. Quando ouviram dele pela primeira vez a idéia de comprar a divisão de PCs da americana IBM, quase todos os conselheiros da Lenovo se colocaram contra o negócio. O raciocínio deles era simples: se a poderosa IBM enfrentava dificuldades para vender computadores, como a Lenovo poderia se sair melhor? "Foi muito difícil convencê-los de que a decisão era acertada", afirmou a EXAME Yuanqing. O chairman acabou dobrando os conselheiros e assinou em 2005 o cheque de 1,2 bilhão de dólares, surpreendendo o mundo dos negócios com o movimento ousado. Agora, o objetivo declarado é superar HP e Dell no mercado mundial.
| Quem é Yang Yuanqing... |
Idade
42 anos |
Cargo
Presidente do conselho de administração da Lenovo |
Salário
2 milhões de dólares(1) |
Estado civil
Casado, três filhos |
Residências
Apartamento em Nova York e casa nos arredores de Pequim |
| ...e o que é a Lenovo |
Faturamento
13 bilhões de dólares(2) |
Funcionários
19500 |
Países em que está presente
160 |
Posição no mercado
Com a compra da divisão de PCs da IBM, em 2005, tornou-se a terceira maior empresa do mundo nessa área, atrás apenas das americanas HP e Dell |
| (1) Por ano (2) Em 2005 |
A escalada da Lenovo não será tão sim ples assim. Um dos problemas tem sido a lenta digestão da compra da IBM. O processo de integração de duas culturas empresariais tão distintas fez com que as vendas de computadores caíssem principalmente nos Estados Unidos. Parte da culpa pela queda foi atribuída à lentidão de Yuanqing em realizar cortes. Diante do mau resultado, ele resolveu trocar o presidente da empresa. Mandou para casa Stephen Ward e roubou o responsável pela Dell na Ásia, William Amelio. Logo que assumiu o cargo, Amelio despediu 1 000 funcionários e, com isso, economizou 250 milhões de dólares anuais. Com a operação mais enxuta e o auxílio de uma agressiva estratégia de marketing, que inclui a presença da marca em grandes espetáculos esportivos, como a liga profissional de basquete dos Estados Unidos e as Olimpíadas de Pequim, a Lenovo espera apresentar um resultado melhor ao longo de 2007.
Apesar da badalação em torno de sua figura, o homem forte da Lenovo é reservado, como a maioria dos asiáticos. O pouco que se sabe de sua vida pessoal é que é casado, tem três filhos, gosta de jogar baralho e pingue-pongue e viaja constantemente para os Estados Unidos, onde estão instalados os quartéis-generais da empresa. Com o salário de 2 milhões de dólares por ano, comprou um apartamento com vista para o Central Park, em Nova York. Nos negócios, o estilo Yuanqing combina a criatividade americana com a eficiência dos chineses. Outra característica é sua obsessão pelos detalhes. Para melhorar o inglês capenga, contratou um professor particular e passou a assistir compulsivamente ao canal de notícias CNN. "Em meses, ele passou de um nível básico para fluente", afirma Flavio Haddad, presidente da Lenovo no Brasil. Outra mania é conferir a distribuição dos lugares numa mesa de negócios. Certa vez, trocou a plaquinha do seu nome para sentar-se ao lado de um deputado americano. Queria discutir a decisão do Departamento de Estado americano de não usar computadores Lenovo por medo de que eles tivessem software de espionagem. "Desde criança fui ensinado a ser forte e persistente. Minha filosofia sempre foi a de ser o melhor", afirma Yuanqing, fazendo jus ao apelido com que ficou conhecido no Ocidente: o "Bill Gates da China".
Fonte: Exame |